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Como conferir se a jurisprudência que a IA te deu existe

· 9 min de leitura

O acórdão inventado nunca chega com cara de erro. O número tem o formato certo. A ementa é fluente, com aquele vocabulário de quem escreve acórdão há vinte anos. O relator existe de verdade e é do órgão julgador plausível para a matéria. Até a data faz sentido.

É por isso que passa. Ninguém deixa de conferir por preguiça — deixa de conferir porque não havia nada ali pedindo para ser conferido.

Este texto é o roteiro que a gente usa. Serve para citação vinda de qualquer IA — ChatGPT, Claude e outras — e serve também para a peça que veio do colega, do estagiário ou daquele modelo que você guarda desde 2019.

Por que a IA inventa julgado

Vale entender, porque muda o lugar onde você desconfia.

Um modelo de linguagem não tem uma estante de acórdãos para consultar. Ele aprendeu como um acórdão se parece — a estrutura, o ritmo, o vocabulário, o formato do número. Quando você pede um julgado sobre determinado tema e ele não tem aquele julgado na memória, ele não sente o buraco. Ele preenche com algo que tem exatamente o formato certo.

Daí a característica mais perigosa: o erro é indistinguível do acerto pela aparência. Não adianta reler com atenção. Só adianta conferir na fonte.

A pergunta certa não é “isso parece verdadeiro?”. É “onde está o link oficial?”.

O roteiro

  1. Comece pelo número, e digite sem pontos

    Vá ao tribunal que teria julgado e procure pelo número do recurso. Detalhe que economiza tempo: digite sem pontosREsp 1882345, não REsp 1.882.345. Os buscadores dos tribunais se comportam melhor assim.

    No STJ, em scon.stj.jus.br/SCON, escolha o critério “Por número do processo” antes de pesquisar. Os resultados vêm separados em abas — Súmulas, Acórdãos, Decisões Monocráticas, Informativos.

    No STF, em jurisprudencia.stf.jus.br, a caixa principal é texto livre: colar o número funciona, mas ele entra como termo de busca e devolve muita coisa. Para procurar por classe e número mesmo, abra a Pesquisa avançada.

    No TST, em jurisprudencia.tst.jus.br, há um filtro estruturado de processo (número, dígito, ano, órgão, TRT, vara).

  2. Achou o acórdão? Veja se ele ainda está de pé

    Esta é a conferência que quase ninguém faz, e é a que mais dói. O acórdão pode existir, com o número certo, o relator certo e a ementa dizendo exatamente o que você precisa — e ter sido reformado depois. O texto continua no sistema, íntegro, afirmando o que já não vale.

    Na página do processo, desça até o fim do andamento. Procure recurso posterior — embargos, agravo, recurso ao órgão que uniformiza a jurisprudência do tribunal. Se houver decisão depois daquela que você quer citar, é essa a que vale.

    Um caso real, para você ver o tamanho do problema: uma decisão de turma do TST de 2023 condenou uma empresa a pagar horas de percurso. Em 2025 a instância seguinte reformou por unanimidade e restabeleceu a improcedência total. Quem citar o acórdão de 2023 hoje está citando algo que foi derrubado — e o inteiro teor dele continua lá, do mesmo jeito.

  3. Em súmula e OJ, confira o status — não só o texto

    Aqui mora o erro que mais dói, porque a citação existe. O enunciado está lá, o texto bate com o que a IA escreveu — e ele foi cancelado, convertido ou superado.

    As súmulas do TST estão em jurisprudencia.tst.jus.br (tipo: súmula) e as orientações jurisprudenciais em jurisprudencia.tst.jus.br (tipo: OJ). Cada verbete traz um campo “Situação”, o órgão judicante e o histórico de alterações. É esse campo que você precisa olhar, não a ementa.

    E confira o status hoje, não o que você leu ano passado. Exemplo vivo: as Súmulas 90 e 320 do TST, sobre horas de percurso, foram formalmente canceladas pela Resolução 225, de 30/06/2025, com perda de eficácia retroativa a 11/11/2017. Qualquer texto anterior a julho de 2025 — inclusive o que a IA aprendeu — as descreve como enunciados vigentes, apenas esvaziados pela reforma. Não é mais o caso.

  4. Em lei, use sempre a versão compilada

    O texto oficial e atualizado das leis federais está no Portal da Legislação, em planalto.gov.br/ccivil_03.

    A armadilha: cada lei tem duas páginas. A da redação original e a compilada, que é a que traz o texto vigente com todas as alterações. O endereço da compilada tem a palavra no meio — l8078compilado.htm — e toda página traz o link “Texto compilado” no topo. Citar a redação original de uma lei muito alterada é um jeito silencioso de errar.

  5. Em tema repetitivo, confira a tese — não a ementa

    Quando a IA cita “Tema 1.061 do STJ”, o que importa não é o acórdão: é a tese firmada. Ela está em processo.stj.jus.br/repetitivos/temas_repetitivos, a Pesquisa de Precedentes Qualificados, que busca por número do tema e mostra a tese e a situação.

    No STF, os temas de repercussão geral ficam em portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao, com campo de número do tema e filtro por situação — inclusive “Cancelado”.

  6. Não achou? Ainda não acabou

    Antes de dar a citação por inventada, tente mais dois lugares. O LexML faz busca unificada de norma e jurisprudência. E a Jurisprudência Unificada do CJF, em jurisprudencia.cjf.jus.br, cobre a Justiça Federal e o STJ num lugar só.

    Um aviso que vale mais que o resto: não existe hoje busca unificada nacional de jurisprudência do CNJ aberta ao público. A busca do Jus.br é restrita a magistrados. Se alguém te mandar um “link do CNJ” para conferir jurisprudência, desconfie do link também.

O caminho, do começo ao fim

  1. A IA te deu uma citaçãoAcórdão, súmula, tema ou artigo de lei.
  2. É lei?Vá ao Planalto e abra a versão compilada — a original pode estar superada.
  3. É súmula ou OJ?Procure no tribunal e olhe o campo Situação, não a ementa.
  4. É tema repetitivo?Confira a tese firmada, que é o que vincula — não o acórdão.
  5. É acórdão?Busque pelo número, sem pontos, no tribunal que teria julgado.
  6. Achou o número?Confira se o objeto bate. Número certo de matéria errada é o erro mais traiçoeiro.
  7. E o acórdão sobreviveu?Desça o andamento até o fim. Decisão reformada continua publicada, com a mesma cara.

Não confirmou em fonte oficial? Não vai para a peça.

Os três sinais de citação inventada

Depois de conferir algumas centenas, alguns padrões aparecem:

  • A ementa é boa demais para o seu caso. Ela responde exatamente a sua pergunta, com as suas palavras, incluindo a circunstância específica que você mencionou no pedido. Julgado real quase nunca é tão sob medida.
  • O número existe, mas é de outra coisa. Este é o mais traiçoeiro: você pesquisa, o processo aparece, você respira aliviado — e é matéria completamente diferente. Confira o objeto, não só a existência do número.
  • A IA não fornece o link quando você pede. Peça: “me dê o endereço oficial de cada citação”. Se vier link genérico da home do tribunal, ou um link que dá 404, a citação não foi consultada — foi lembrada. E lembrança de modelo de linguagem não é fonte.

O jeito de errar menos desde o começo

Duas mudanças no pedido resolvem boa parte do problema, antes de qualquer conferência:

Dê o texto, não o número. Colar o teor do despacho, da decisão ou do acórdão funciona muito bem — a IA trabalha em cima do que você deu. Perguntar “o que diz o REsp tal” é convidar a invenção, porque aí ela precisa buscar na memória.

Peça a fonte junto, sempre. “Cite o link oficial de cada norma e julgado que usar.” Você descobre o problema na hora — e não depois do protocolo.

Uma palavra sobre por que isso não é opcional

Citar julgado inexistente em peça não é um errinho de digitação. Compromete a credibilidade da tese inteira perante o juízo, e a responsabilidade pelo que está na peça é de quem assina — não da ferramenta.

A boa notícia é que conferir é rápido quando você sabe onde clicar. Os endereços deste texto foram todos acessados e testados na data de publicação.

No atture-adv, essa conferência é uma das skills do sistema. Ela pega cada dispositivo, súmula, tema e acórdão da peça e vai verificar na fonte oficial — e o critério é o mesmo deste artigo: sem link oficial consultado na hora, a citação não recebe selo verde.

Vale para a peça que qualquer IA escreveu. Inclusive a nossa.